17 Julho 2007

Lisboa o retrato de um país

Pode não parecer relevante a análise dos resultados da eleições intercalares autárquicas em Lisboa, mas por ser a capital do país, e consequentemente o coração do país, impõe-se uma análise aos resultados e aos protagonistas.
Em primeiro lugar, o vencedor. António Costa consegue uma vitória clara sobre os seus mais directos adversários, sem contudo conseguir o seu principal objectivo da maioria absoluta. Num mandato de apenas dois anos e nos problemas crónicos que afectam Lisboa este será um delicado problema político que o obrigará a entendimentos pontuais nas diversas áreas que poderá fazer correr muito tinta e dará lugar a grandes discussões. É uma vitória que não deve ser empolada com retóricas de vitória clara pois governar sem maioria colocará à prova António Costa e a sua equipa e obriga-o a um hábil relacionamento político com as outras forças menos votadas.
Em segundo do lugar, o resultado surpreendente de Carmona. Este resultado era anunciado pelas sondagens dos últimos dias mas não deixa de espantar pois ele é o mesmo que fez cair o executivo camarário com escândalos de corrupção e tráfico de influências. Não é claro ainda o que quer dizer este segundo lugar e só uma avaliação posterior pode-nos indicar quem votou em Carmona e porque razoes, pois Lisboa não costuma ser condescendente neste tipo de situações.
A grande derrota da noite é para Marques Mendes e para o PSD que necessitava de uma vitória para colocar em cheque a governação de Sócrates e do PS e para capitalizar politicamente essa vitória. Fernando Negrão foi um bom candidato e fez uma campanha positiva, mas o partido que representou está corroído e mais do que um aliado foi uma menos valia na sua campanha.
Helena Roseta é uma das grandes vencedoras. Elege dois vereadores e com Carmona inicia uma moda que pode estender-se ao resto do país: um papel cada vez maior dos independentes e dos movimentos de cidadãos. No entanto é preciso ver que os independentes presentes nestas eleições não o são de raiz, pois são descolagens de partidos, ou seja, os independentes ganham projecção nos partidos e escolhem posteriormente um caminho pessoal e individual.
A esquerda comunista e bloquista tiveram um bom desempenho ficando na linha do que vem sendo hábito. Surpreendeu-me o resultado de Ruben de Carvalho que mostra que a CDU ainda tem uma palavra a dizer no panorama político lisboeta e nacional. O que não me surpreendeu foi o discurso absurdo e deturpado de Jerónimo de Sousa que se apressou a tirar conclusões sem sentido a nível nacional e contra a política do governo.
Sá Fernandes conseguiu os seus objectivos mas era expectável mais. Tem sido uma voz activa e combativa na câmara de Lisboa e tem tido um desempenho muito positivo de isenção e transparência. A simpatia que tem adquirido em Lisboa fazia esperar uma vitória mais expressiva, acima até de Ruben de Carvalho.
Outro grande derrotado foi Telmo Correia e o CDS. Tanto o candidato e o partido deram razão à ideia que ficou da reeleição de Portas: vira o disco e toca o mesmo. O CDS perde poder a cada eleição que passa, e as eleições para a câmara de Lisboa são o prelúdio do que acontecerá com Paulo Portas nas próximas legislativas: uma derrota e a sua consequente demissão.
Em suma há várias conclusões que se podem tirar para a cidade e para o país nestas eleições: a primeira é que por mais que se queira fazer passar a mensagem contrária, o PS afirma-se cada vez mais no poder, com ou sem propaganda, com ou sem demagogia e está a ganhar em todas as linhas. A segunda é que a direita entrou numa espiral de descrédito que demorará anos até livrar-se dela. É fundamental o reaparecimento de um líder carismático que dê um novo impulso, pois o centro direito actual não consegue fazer oposição nem destrutiva e muito menos construtiva.
E por último, a forte abstenção que penaliza a democracia, penaliza os partidos e penaliza os políticos. Urge encontrar soluções para este défice de cidadania.


PS – Não sendo fã de touradas, cada vez aprecio mais uma boa tourada de praça. Vi os forcados da TTT na televisão e fiquei orgulhoso da sua boa prestação e da imagem que deram ao país da aficion terceirense.