16 Novembro 2007
O Erro da JS
Lia-se, há uns tempos, neste mesmo jornal uma entrevista ao actual líder da JS-Açores, Berto Messias, que explicava a sua grande bandeira política de fixar jovens licenciados nas ilhas, ideia essa que tinha levado a Congresso recentemente.
A ideia tem mérito e defende sobretudo os sectores saúde e novas tecnologias como prioritários, recorrendo também à capacidade empreendedora dos jovens açorianos. Todavia tem um problema grave: é uma ideia que começa pelo tecto em de vez de começar pelos alicerces.
O que a JS fez foi, basicamente, “dourar a pílula” projectando-a mediaticamente e relegando para segundo o longo caminho estrutural para ter jovens empreendedores açorianos a operarem nas ilhas.
Não é possível neste momento integrar plenamente jovens licenciados num mercado minúsculo como é açoriano. Sim (!) minúsculo porque, por exemplo, hoje na Europa o mercado interno são 450 milhões de pessoas, e nós insulares estamos muito longe sequer de ter 1 milhão. Isto significa que não pode haver empresas privadas com volumes de negócios suficientes, para ter equipas altamente especializadas de jovens quadros a trabalharem.
Isto também significa que todos aqueles que quiserem ter uma dimensão aceitável, terão de apostar na exportação para fora do arquipélago, o que traduz mais um problema grave que é o de sermos uma ultraperiferia, onde os custos de transporte são preponderantes. Situação esta que, logo à partida não permite termos nos açores certos tipos de industria que seriam muito atractivas.
Outro problema estrutural grave é que o sector privado nas ilhas carece de visão e de dimensão. O problema da dimensão compreende-se face aos condicionalismos espaciais. Já o de visão só se explica com uma cultura que prefere empregados a trabalhar ao preço da chuva, do que especialistas bem remunerados que podem criar valor à empresa e modernizar a sua estrutura para melhor responder aos desafios do mercado global.
A JS quer os jovens açorianos a apostar na Tecnologia da Informação. Muito bem! Mas como se pode desenvolver produtos e serviços competitivos se existe um divórcio entre a Universidade dos Açores e o meio empresarial? Como se podem construir empresas sólidas sem “incubadoras” de negócio à imagem do que existe no continente? Como se pode ser competitivo na área explosiva das tecnologias sem parques tecnológicos de 3ª Geração designados como “Cidades do Conhecimento”? Não se pode…
O segredo é antes de se começar pelo tecto da casa, fazem-se umas boas fundações e constroem-se boas paredes. Isto significa educar melhor no secundário (as escolas açorianas aparecem todas abaixo da posição 200 do ranking nacional), apostar num ensino técnico de qualidade, criar condições efectivas para o empreendedorismo, construir plataformas logísticas eficazes e capazes de escoar produtos com qualidade e eficiência diminuindo os custos de transporte.
Quando a JS-Açores apresentar as suas propostas ao Parlamento açoriano até ao final do ano, certamente, terá todas estas questões em atenção. Outra coisa não é de esperar.
PS – O PSD, num processo de reestruturação nacional, quer vender a sua sede em Lisboa. Talvez possa alargar a iniciativa e vender o PSD-Açores. A repetente nova liderança do PSD-Açores deve ter em atenção que “o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”.
16:48 Escrito em De Olhos bem Abertos | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail


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