31 Julho 2008
O Diabo da Crise
Todos nós temos sentido a crise, uns mais outros menos, mas a verdade é que ela veio para ficar e afecta tanto os mais pobres, como toda a classe média.
Os preços dos bens de consumo aumentam (essa malfadada inflação que nos estrangula), os juros disparam (a tal desgraçada Euribor que nos esgana), os salários não aumentam (a já conhecida formula mágica do sacrifício colectivo) e por ai fora.
Mas de onde vem esta crise? As respostas são muitas e os analistas desdobram-se em apontar causas e protagonistas. Pessoalmente identifico dois grandes movimentos. O primeiro é óbvio: o rebentar da bolha especulativa no mercado imobiliário transferiu os especuladores para os mercados de futuros, onde se engloba o crude, os cereais, os metais preciosos, etc.
Esta movimentação especulativa, que por um lado rebentou o mercado imobiliário com enormes custos para as famílias que se viram endividadas com os pequenos palácios que compraram, e por outro, com a transferência dos especuladores, empolou-se as matérias-primas essenciais ao consumo humano. Quem paga essa factura? Todos nós classe média que empobrecemos para outros enriquecerem.
A segunda resposta a esta crise é mais complexa, e com certeza mais refutável: o mundo está economicamente sobreaquecido. Estamos numa era em que é pedido às empresas lucros consecutivos, vivemos num mundo onde os países são obrigados a crescer e a aumentar os seus indicadores económicos, estamos numa situação em que consumir desenfreadamente é sinónimo de prestígio social. Obviamente que isto tem um preço, onde se inclui a delapidação dos recursos e o sobreaquecimento económico. Parece-me licito afirmar que num contexto de recursos finitos, num contexto de espaço limitado e de produção desenfreada esta dinâmica irá, mais dia, menos dia, implodir. Só se pode crescer até certo ponto.
Hoje assistimos a uma correcção desta paranóia consumista e de crescimento, onde uma série de factores ambientais e sociais estão a entrar em acção para parar esta loucura colectiva.
Quem já leu o “Mundo de Ontem” de Stefan Zweig, apercebe-se que quando ele falava na fé inabalável no progresso da belle epoque, que descambou em duas guerras mundiais quando nada o fazia prever, começamos a encontrar hoje uma série de perigosas semelhanças.
Apesar de não querer ser arauto da desgraça, só existe uma solução para a procura de recursos e do seu controlo, porventura a mais antiga de todas as soluções: a guerra.
Não nos podemos deixar enganar pela “cooperação” politica e económica a nível mundial, o equilíbrio hoje é muito precário com focos de grande instabilidade geográfica que se podem rapidamente alastrar.
Cabe a cada um tentar responder à questão “Como sair da crise”, sabendo que em pouco podemos influenciar nessa resposta, mas que certamente a solução passará por uma comportamento mais responsável de todos nós face ao mundo em que vivemos.
PS – Achei genial que na semana em que o crude desceu mais de 20 USD nos mercados internacionais, os combustíveis vão aumentar nos Açores…
13:17 Escrito em De Olhos bem Abertos | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail


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